Opções do Improvável

Pensando no movimento (Foto: Pepe Mélega)

Semana que passou li textos sobre erros que levam a fotografias de arte, vi fotógrafos de arte pasteurizarem seus trabalhos comercializando-os em DVDs com conteúdo livre para qualquer aplicação sem limitação de tempo. Será que estou com o pensamento ultrapassado? Pois para mim a busca por registrar a ideia fotograficamente sempre foi obrigação de quem se diz fotógrafo e receber (remuneração adequada) pelo que faz comercialmente sempre foi uma obrigação justa! Óbvio que todos tem a liberdade de cobrar o que desejam ou o que acham justo, mas nesse caso sou a favor de que se é para cobrar, cobre bem. Aliás ideia compartilhada com outros amigos que dividem o oficio de fotografar como profissão – vide o texto de Clicio Barroso em seu Blog.

O ponto fundamental é que um erro não pode se tornar arte, um erro pode levar a uma ideia, a um conceito, mas não arte. A arte pode surgir a partir do momento que se transforma o erro em técnica consistente, onde o domínio de quem a aplica (o artista) é evidente demonstrando que sabe o que se está executando com o equipamento.

Atravessando na faixa - efeito com lente Tilt and Shift (foto: Pepe Mélega)

Esse é o ponto, criar desfoques consistente (vide Claudio Edinger), criar foco seletivo, borrar pontos através do movimento, tremer (shake photo), etc com o uso de técnicas que devem ser dominadas para criar a imagem a seu favor e não por acaso ou por que errou-se. Não sou contra e nem defendo a foto certinha na regra dos terços com tudo exatamente no foco, cores balanceadas, etc. Sou contra o erro do fotógrafo ser levado ao patamar de arte pelo acaso de ter-se errado. Sou a favor de distorções e aberrações cromáticas causadas pelas LOMO e ou HOLGAs, sou a favor da lente invertida, da LensBaby, da Tilt e Shift, Fish Eye (olho de peixe) e das câmeras técnicas que basculam a procura de um único ponto com foco dentro de uma imagem cercada de distorções. Tudo isso é para mim o uso da criatividade de aprender com o erros e transforma-los em ferramentas a favor da imaginação fotográfica que cada autor tem dentro de si. Mas admitir que um erro numa única foto, fruto do acaso, seja transformada em arte é uma falta de respeito a quem se dedica ao ato de fotografar.

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~ por Pepe Mélega em 01/02/2010.

13 Respostas to “Opções do Improvável”

  1. Pepe, apenas um reposto do que já coloquei no Clício.
    COm minha ótica e momento atual.
    Abraços
    Russo

    Clício,
    realmente o assunto do DVD de imagens rendeu nas listas. Muito foi dito sobre ser certo ou errado, mas sua primeira premissa é soberana.. cada um faz o que desejar com seu trabalho ao preço que lhe convier.
    Apesar disto, esta forma de trabalho acaba jogando o valor ainda mais do mercado apra baixo. Como outras ações pontuais, cada vez que num mercado alguém resolve tirar um pouyco mais da gordura (ou da carne) de seus valores, todos vão descendo na ladeira abaixo.
    No segmento que atuo profissionalmente, além da fotografia, existe a possibildiade de por várias razões as empresas micarem com equipamentos usados que foram instalados e retirados de clientes ao longo do tempo. Uma vez usados, só podem ser alugados e a demanda para isto não é tão grande.
    Numa reunião gerencial discutimos a possibilidade de efetuarmos uma “liquidação” destes equipamentos usados que se acumulavam. A princípio a idíea pareceu muito boa pois envolvia uma camapnha massissa, a oportunidade de colocar mais clientes de uma faixa mais baixa na base, etc..
    No meio do caminho um dos sócios levantou um ponto que pôs todos os outros por água a baixo. Se iniciássemos esta camanha vendendo usados a 60%do valor por exemplo, depois de 1-2 meses de campanha o mercado teria se acostumado com este valor, os concorrentes teriam baixado seus preços, haveriam proposta nossas circulando sem haver mais a campanha. Mas a soma destes fatores iria provocar a perda praticamente irreverssível do valore de mercado dos equipamentos (isto para algo que tem um preço de custo conhecido, fabricante, etc).
    Extrapolando isto para a fotografia, acredito que cada vez mais estas ações estão provocando este processo, derrubando o valor unitário de mercado de cada imagem produzida. Sim é natural que ocorra em virtude da exponenciabilidade que HDs maiores e mais baratos, foto digital e internet rápida provocam.
    Mas da forma que se encontra, hoje quem quer entrar no mecado autoral esta sendo barrado pela venda dos portfolios antigos de fotógrafos conhecidos (como este DVD), quem quer partir para estúdio começa a esbarrar nos microstocks e similares (e poucos tem capital para montar mega estúdios para produzir milhares de fotos mensais), sobra eventos onde hoje se concentram os antigos e new faces da fotografia (e mesmo neste mercado os valores estão caindo).
    Fica a pergunta, no rítmo que anda esta evolução, daqui a 5 anos, 2 anos ou talvez 6 meses como um novo apaixonado pela fotografia que desejar viver dela vai começar a ganhar seu pão?
    Abraços
    Russo

    • O apaixonado vai entrar, vai estudar e vai fotografar pela paixão e empreendedores no oficio vão continuar a existir pela paixão, mas não pela lógica – afinal pagar para estudar, investir em equipamento e conhecimento para receber os atuais valores só ser for por paixão mesmo!

  2. […] Pepe Melega […]

  3. Infelizmente as pessoas tendem a “pasteurização”, Pepe, concordo com voce, o efeito (ou defeito) proposital, de quem sabe exatamente o que pretende ou pelo menos próximo disso faz a fotografia, o erro por si só faz pretensos artistas.
    técnica é poder reproduzir conscientemente um objetivo que foi atingido, como reproduzir um efeito do acaso?
    Em determinado momento eu vi que o que me estava sendo apresentado como “contemporâneo” não passava de lixo alimentado pelo modismo e pela estranheza e polêmica que essas imagens normalmente geram, eu vi que são ótimos vendedores, pois provocam poêmica e com isso estão sempre no topo da mídia, mas nunca serão artistas de fato pois são vazios de conhecimento e de capacidade.
    Enfim, o tempo há de se encarregar de levar isso tudo pro ralo como temos inúmeros exemplos no decorrer da história.
    Abraços

  4. Pepe,

    Boa reflexão, e concordo com a maior parte de seus argumentos.
    O que não concordo é com o seu pessimismo; para quem tem talento, técnica e esforço, sempre há luz no fim do túnel.
    Acabo de linkar este post ao meu, OK?
    Abraços

  5. Mas a luz no final do túnel pode ser o trem, rssssss. Não é pessimeismo, se o fosse já estava longe fazendo outras coisas. Sou fotógrafo, gosto de que faço, procuro alternativas e vi muitas mudanças do oficio, mas continuo apaixonado pelo que faço. Abs

  6. Pepe, no meio dessa tempestade de areia digital, que acho uma hora dessas assenta, cada vez mais penso que sempre existirão bons fotógrafos para atender bons clientes que sempre buscarão qualidade e singularidade acima de tudo. Nada será fáci daqui para frente, mas quem tem excelência continuará! Como bem disse o Clicio” “Uniqueness”. Mas muitos dançarão! Os tempos estão mudando, como sempre mudaram, faz parte desta trajetória tumultuada so ser e fazer humano.

  7. Ano passado fui numa exposiçao e li tantos elogios sobre ela que comecei a achar que o insensivel era eu… eu via erros na maioria das fotos. erros diferentes, visivelmente por descuido tecnico, ja que haviam algumas fotos bem cuidadas no meio… e os erros nao seguiam o padrão “fiz de proposito e vou usar a mesma transgressao tecnica na foto ao lado”. Os preços caem, o mercado se prostitui (e não só na fotografia) também na qualidade do que é oferecido, embora aumente a oferta… a qualidade nao acompanha

  8. Pepe, concordo com tudo o que disse!
    sou artista plástica formada na graduação, estudei e ainda estudo sobre Arte em geral, estudei na pós graduação teoria da fotografia.
    me apaixonei pela fotografia há 3 anos e hj em dia domino técnicas fotográficas, procurando usá-las ao meu favor para expressar o meu sentimento e minha visão de mundo.
    para mim, a arte tem que ser pensada…
    parabéns pela reflexão aqui descrita!

  9. Realmente hoje em dia a palavra ARTE é muitas vezes utilizada a revelia, para definir algumas obras a qual querem atribuir um valor maior do que de fato tenham.
    Parabêns pelo texto!
    Abraços.

  10. […] 02: O Pepe Mélega colocou um pequeno artigo complementar a esse assunto em seu blog, intitulado “Opções do […]

  11. Pepe;
    Por vezes penso na cultura como dominada pela seleção natural… Emergiu, então É. E antes de emergir não cabe julgamento.

    Mas vamos ao assunto…Vamos imaginar que alguém pendure no chapéu uma câmera programada para disparar a cada três minutos. Ao fim de uma hora terá 20 fotos, ao fim de um dia terá (24-8)*20=320 fotos, ao cabo de um mês terá mil fotos.
    Digamos que as fotos sejam feitas automaticamente, para simplificar.

    Digamos que depois de um mês o fulano separe dessas 1000 fotos, duas julgadas capazes de exprimir uma mensagem artística afinada com o seu propósito.

    Digamos que em um ano ele tenha 24 fotografias.

    É um método como qualquer outro. Um método no qual a instância reconhecimento é exercida sobre uma extração mais ou menos aleatória. Mais ou menos porque o nosso personagem pode levar a câmera para passear nos ambientes que desejar, e mesmo que não o faça as fotos refletirão sua maneira de viver.

    Não vejo nenhum problam nisso, desde que os critérios de seleção sejam suficientemente rigorosos -dentro da intenção do autor- para produzirem um resultado significativo. O problema para mim não é a participação do acaso ou do erro, mas o baixo critério de extração.

    Grande abraço,
    Ivan

    • Não julgo, apenas me manifesto ou faço minhas escolhas dentro da liberdade que me é de direito. No seu exemplo há sistemática, há intenção, logo não o é ao acaso como minhas palavras expressão meu pensamento. Abs

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