Ser fotógrafo no século 21

Li uma frase no domingo que bateu como um bate estaca em minha cabeça: ” Repense seus hábitos de trabalho”.
Como repensar e correr atrás do “dim dim” para pagar as contas? Simples organize-se! Sim, organize-se, nós fotógrafos temos o péssimo habito de não sermos organizados. Pensamos (muitos, e eu também) que basta ser artista e fazer o super click, ERRADO! Seu super click precisa estar disponível, precisa ser apresentado, precisa circular em um network com possibilidade de ser vendido.
Ah Pepe, isso eu faço sempre (já pensou, né), mas não para por ai, tem gente que é ótimo para indexar imagens, para arquivar imagens, para remeter amostras de seu trabalho. Mas é péssimo na hora de comercializar. Tem outros que até o dom para isso possuem, mas são terríveis com o equipamento que faz parte do trabalho. Pode ter certeza que é raro achar um fotógrafo que sabe o que faz com o equipamento (usá-lo e mantê-lo em condições de uso a qualquer momento) , de estar com seu acervo em ordem, indexado e pronto para achar qualquer imagem que for solicitada (dentro de seu segmento) ou de sentar a mesa para uma negociação e conseguir levar o preço a um patamar realista para ele e para o cliente.
Puxa (para não falar um palavrão) como é difícil equilibrar tudo isso e o pior cada vez mais estamos só. É, viramos Eu S/A, tudo é feito por eu mesmo para diminuir custo. Home/Office cada vez mais, sistemas remotos para atender uma necessidade em qualquer lugar que estejamos, tudo em nome da economia para se adequar aos recursos que se achataram em nosso oficio. Você pensa que não? Bacana começou ontem na profissão ou vive em Marte!!
Não é só aqui – mas aqui está além da conta – é Global, mas aqui é pior, pois vejo em outros países que há respeito pelo fotógrafo e aqui isso está em extinção! O pior exemplo vem do mercado editorial onde a moeda de troca é a divulgação de seu crédito. Alarmante né, a obrigação estabelecida por lei (direito autoral) virou forma de pagamento para novos, experientes e velhos fotógrafos. As propostas são do tipo: – precisamos disponibilidade de dez dias de um fotógrafo experiente como você para uma viagem ao Pantanal onde vamos fazer um editorial de 20 páginas com apóio (leia-se: GRANA) de fulano, beltrano e sicrano. Em troca suas despesas de viagem serão custeadas no que diz respeito a passagens aéreas, hospedagem, alimentação e transporte chegando lá. Extras por sua conta, leia extras como: chegar no aeroporto de Congonhas ou Guarulhos e vice versa, café ou água enquanto estiver trabalhando ou em deslocamento. Na hora da alimentação quem ficou com o dinheiro procura por um local que não extrapole a verba que as vezes não passa de R$ 10,00 por cabeça. E quando você vira para o produtor (faz me rir) e diz que precisa de pilha para o flash (s) a resposta é: trata-se de seu equipamento de trabalho é sua responsabilidade, vire-se. Mas espera ai, trabalho!! Mas não estou recebendo nada eles vão me pagar com o crédito nas fotos que usarem na matéria. Sacou né, o que parece bom é na verdade a maior roubada que você pode entrar. Você vai colocar em risco seu equipamento, vai ter despesa, não vai conhecer nada – pois acordou começa o trampo e quando esse acabar você só quer saber de um bom banho e cama (as vezes até esquece de comer e a produtora agradece. Economizou para o patrão) . Cara pálida, plagiando um amigo querido, você pagou para trabalhar!

Escuto um berro seu: Não eu ganhei experiência e aprendi. Aprendeu com quem? Só tinha você para fotografar, iluminar, etc. Quem te ensinou? Seus erros e acertos! Então você pagou para trabalhar, pois podia fazer tudo isso perto de sua casa, sem arriscar muito o equipamento e sem gastar excessivamente – é qualquer viagem se gasta!
Quem ganhou? O editor que vai ter uma pauta realizada com imagens que podem ser exclusivas e não de um banco de imagem de divulgação do lugar e vai colocar uns 20 mil exemplares (dependendo do título da revista) na banca para vender a R$ 9,60 + publicidade que está inserida no interior da edição e de tudo isso foi oferecido a você em troca do seu trabalho é o que a lei manda ele fazer! Crédito na foto é seu direito e não vitrina para seu trabalho por mais desconhecido que você seja no mercado !! Cara pálida, você realmente pagou para trabalhar.

Foto: Rita Barreto

Foto: Rita Barreto

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~ por Pepe Mélega em 21/07/2009.

20 Respostas to “Ser fotógrafo no século 21”

  1. Muito bom seu post .
    Acho que todos já passaram por isso , mas o dicernimento só vem depois de pelo menos uma vez pagar pra trabalhar.
    A fotografia se confunde muitas vezes com o prazer. Isso nos seduz e podemos acabar numa roubada.
    Abraços

    • Esse é o ponto Xavier, nos temos prazer em fotografar, em pesquisar, em estudar, em analisar tudo sobre fotografia e muitas vezes esquecemos que é nossa profissão. Mas, alerta!!! Os que contratam no mercado editorial estão usando isso a favor deles e descobriram que o ego de publicar imagens é um ponto fraco de muitos fotógrafos. Está na hora de termos responsabilidade com a profissão. Abs e obrigado pelo comentário.

  2. Somos sofridos, disse um amigo retocador, referente ao trabalho que fazemos, no brasil, o equipamento é caro, o imposto é alto para quem compra para quem vende, a lei funciona com quem tem dinheiro, quando funciona.
    Trabalhamos o mês todo para receber em 30 dias, o próximo mês procura cliente e sobrevive com o do mês passado, e assim vira um ciclo doentio, fotografia neste momento para mim é apenas trabalho, a poesia fica para o amador avançado que não subvive de fotografia.
    Eu S/A ou VC S/A faz mkt,compras ,vendas, planejamento , financeiro, e ainda fotografa e ainda ama o que faz.

    Reeducação do mercado todo é a solução . A Solução de uma nação inteira.

    Parabéns Pepe .

    Um Abraço

    Claudio Fett

    • Temos que aprender a ser uma empresa e principalmente agir como tal. Se atraso uma conta pago multa e juros, se o cliente me atrasa tenho que aceitar e pedir desculpas por estarem comprando meu serviço? Somos prestadores de serviços e temos que nós portar com tal orçar, planejar, executar, entregar e receber. Há bons clientes que entendem isso e se portam como clientes e os aproveitadores que depois de entregue o serviço fazem de conta de que não há remuneração a ser paga. Para isso há solução, seja uma empresa, emita sua nota fiscal, aproveite os benefícios de ser legal em seu oficio. Quem não é legalizado não tem como prover que fez o trabalho, não tem pedido, orçamento aprovado, não emite nota fiscal que lhe dá o direito de protestar se não houver pagamento. É isso que precisa ser entendido por quem quer “sair na mídia” e não vive da fotografia que produz. Nada contra, mas faça da maneira adequada, se é por diversão faça-o assim, crie o projeto, o Blog para divulgar seu projeto e mostrar as fotos e se poder publique um livro do seu trabalho a suas custas. Mas viajar para trabalhar sem remuneração não é o caminho, algo há de conter nessa troca. Pode ser remuneração e pode ser divulgação, mas divulgação que interessa como mostrar as logomarcas de possíveis patrocinadores de meu trabalho. Mas fazer em troca da obrigação (crédito junto as fotos de sua autoria) é muita cara de pau de quem propõe. Abs

  3. Pepe,

    Muito pertinente seu post.
    O fato é que a maioria dos fotógrafos experientes está perplexa com o que está acontecendo, enquanto os novos, que nunca conheceram nada diferente disso, acham “normal”.
    Enquanto isso, é difícil encontrar editores e publishers pobres, enquanto nós fotógrafos…
    Nem vou falar!
    🙂
    Clicio

    • A nova geração tem que aprender quanto custa fazer uma foto! Tiro o chapéu para você – sem puxar o saco – ao propor fazer uma explanação sobre composição de preço durante o evento da Fototech em Belo Horizonte e estou propondo seguindo seu exemplo um palestra do porque não fazer trabalhos sem remuneração para editoras apresentado claramente o que é institucional e o que é trabalhar de graça ( já que crédito é obrigação). Obrigado pelo comentário, abs.

  4. Pepe, tomei conhecimento deste post através do Clicio, falastes tudo. Parabéns!
    Na era do digital, parece que um botão que faz ‘click’ é o suficiente para adentrar no mercado.

  5. Pepe,

    Oportuno e lúcido o seu texto. Lembrando sempre que, quem vende seu trabalho barato faz isso mais por opção própria do que por imposição.

    Ao se contratar um fotógrafo vem junto (ou deveria vir) o conceito, a experiência, o repertório, a formação, a infra-estrutura e sobretudo, a conduta profissional.
    Se um colega cobra barato por tudo isso, ou ele não sabe o que é ter isso, ou não dá valor.

    Ao aceitar trabalhar de graça, ou pagar pra trabalhar, no momento seguinte, quando quiser cobrar, o próprio fotógrafo baratinho criou as condições para que lhe digam NÃO.

    Esse é o resultado da indigência intelectual da classe, onde ainda tem que acredite que ego paga conta.

    • Afonso Jr,

      Tu chegou em um ponto muito importante, a fotografia comercial é bussines. Quem se desprende do ego, exerga a fotografia como empresa e não como um estilo de vida.
      Eu não sou apenas fotógrafo, sou também empresário, somos empreededores. Fotografia boa é fotografia paga e clientes fiéis.
      Que nossos clientes procure pela qualidade, atendimento, e sabendo que as vendas aumentam por causa de nossa eficiência.
      Quem é bom ou ruim o cliente decide!
      Abç
      Claudio Fett

  6. Oi Pepe, parabéns pelo teu texto muito oportuno, esa visnao distorcida do que é um trabalho fotográfico grassa tanto por aí que já até me sinto desanimado. Sou do tempo que os clientes achavam chic contratar um Photographo, que se orgulhavam de ter suas propriedadesm produtos nas mãos de um profissional, aos 27 anos, em 1975 fiz umas fotos para um stande da ASTA no Hotel Nacional no Rio que comprei um carro zero com metade da grana que ganhei! Bons tempos! Abraços!

    • Trabalhos bons ainda existem, mas não com a mesma freqüência de antes Vicente. Também passei por bons períodos, mas a economia mudou e mudaram os patamares de remuneração de muitas profissões. Disso não reclamo, vou me adequando. Mas estou cheio de “fotógrafos” quem pegam suas câmeras e vão a procura de passeios nos finais de semana, nas férias escolares e se prestam a fazer trabalhos editoriais pelo oportunismo de uma viagem sem custo e de ver as imagens publicadas em um título qualquer. Não sou contra a dar oportunidade, aliás durante anos com editor dei oportunidades, experimentei e briguei por alguma forma de remuneração – seja ela dinheiro, permuta por espaço para divulgar o próprio trabalho, etc. Sempre dava um jeito de que se é para fazer um teste vamos faze-lo com respeito. Respeito é explicar o que se deseja, é ensinar, é mostrar qual imagem é importante dentro da pauta, é permitir que o testado não passe fome, sede, durma ao relento, etc e ainda oferecer algo em troca não importa o que seja, desde de que não seja a obrigação do crédito junto a imagem produzida. Lembro de minha primeira participação em uma revista, era para me testarem, viajei em carro da empresa, me hospedaram bem, me alimentaram bem e apresentei meu trabalho. Gostaram, publicaram e fizeram meia página de make off me apresentando como novo colaborador (ou seja um retorno institucional de verdade numa revista de importância na época – Horizonte Geográfico). No segundo trabalho apresentaram a pauta, informaram a remuneração e me deram um adiantamento de despesas para prestar conta no volta. Hoje pedem para pagar com seu cartão de crédito (as vezes até a passagem), questionam tudo e mais um pouco do que você gasta, chegam a demorar 45 dias para lhe fazer o reembolso, não falam em remuneração e acham que estão lhe fazendo um favor ao publicar seu nome junto ao seu trabalho. Falta de respeito, pois há quem faça sorrindo achando que está fazendo um grande negocio. Lógico não vivem da sua fotografia. Só rindo, abs

  7. Adorei todos ponto de vista, estão ótimos nas colocações, parabéns.

  8. Pepe,
    Totalmente procedente o seu texto. Lembro-me o quanto batalhamos através dos encontros nacionais dos repórteres fotográfico durante a década de 80 para que o crédito fosse obrigatório e, depois de tanta luta, ver que o crédito virou moeda, parece até piada. Sobre a remuneração sobre os trabalhos, tabelas de sindicatos e associações, então, melhor mesmo nem falar.
    Abraços,
    Vitor

  9. Pepé você sabe que acompanho alguns de seus trabalhos a muito tempo, lendo este texto me deu um tristeza no coração de saber que tudo isso acontence com a fotografia e com os profissionais de campo.

    uma pena le isso.

    mas e a vida vamos remando conforme a mare ou dancando conforme a musica.

    forte abraco

    Valter Moraes

  10. Pepe, parabéns, seus comentários estão ótimos, especialmente a primeira parte, quando você fala em encontrar o seu ponto de equilíbrio. Pois além de bons fotógrafos, precisamos ser bons administradores, empreendedores e etc.
    Pois é fácil ser “o tal” quando tudo está bem, o mercado aquecido. Na crise é que os craques aparecem! E craque é o cara que encontrou este equilíbrio. Eu estou buscando o meu!

  11. Excelentes colocações! É preciso divulgar em todos os meios para atingir o maior número possível de fotógrafos para ver se conseguimos atingir uma massa crítica que faça mudar o mercado.

    Abraços,
    Marcão

    • Marco ajude, divulgue para sua lista de contatos vamos fazer um esforço para que a mensagem chegue e evite de sermos absorvidos pela descaso de quem usa nossos serviços. Obrigado pelo cometário, abs

      • Pepe, já estou disseminando. Deixei uma chamada no meu blog e estou repassando a outros fóruns.

        Abraços,
        Marcão

      • Obrigado, vamos ver se conseguimos implantar uma conduta mais adequada de ambas as partes – pois fotógrafos também possuem um responsabilidade pelo que está acontecendo. Abs

  12. Boa Pepe! Temos que nos organizar … cliente institucional quer pagar tabela de editorial e os veículos não querem pagar nada!

    Vou divulgar o seu post no meu blog, ok?

    Vamos espalhar este protesto!

    Abs,

    Duda Covett

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